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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

É recriminável a hipocrisia na política?

Em tempos de eleição, quem nunca viu um político jurar de pés juntos apoiar valores, princípios e atos que há alguns meses ou anos ele recriminava com os piores espinhos ou ignorava de todo? O caso mais recente é a questão religiosa envolvendo os atuais candidatos à presidência, Dilma (PT) e Serra (PSDB). Este blog postou sobre esse fato em duas postagens: "Dilma, Deus, o Aborto e o falso debate" e "Hipocrisia sem limites". Nelas, explícita ou implicitamente é recriminada a atitude hipócrita dos candidatos, que, em busca de votos, têm ostentado posturas religiosas que nunca tiveram na maior parte de suas vidas; preocupados com isso, ambos têm deixado de lado os debates e as questões que interessam a nós, brasileiros e brasileiras; afinal, quais são as propostas de cada um e como eles pretendem efetivá-las num possível governo? São questões que nos interessam e que não foram debatidas devidamente.
No entanto, quero defender aqui que essas atitudes hipócritas não devem ser em si mesmas encaradas de forma negativa, não devem ser recriminadas nessa situação; o que deve, sim, ser recriminado são as consequências sociais negativas que tais ações têm trazido, a saber, a carência e trivialização de debates que importam. Mas por que eles não deveriam ser recriminados? Não recriminamos as pessoas que são "duas caras", que aqui aparecem de um modo defendendo uma coisa e ali aparecem defendendo o aposto? Sim, muitas vezes o fazemos. Mas isso não pode ser feito em absoluto, sem relação com a situação - e particularmente creio que na situação política em que ambos se encontravam não devemos recriminá-los por estarem sendo hipócritas, mas por nos estarem prejudicando. Não devemos fazê-lo exatamente porque se encontravam numa situação tal, que a "hipocrisia" constituia uma estratégia política interessante, sedutora e quem sabe até necessária, aos candidatos. O Brasil é um país formado em sua maioria por pessoas religiosas em algum sentido. É evidente que facilmente se pode perder votos ao se ostentar uma atitude contrarreligiosa ou indiferente, em especial quando a mídia e a oposição coloca a questão (no caso, do aborto) no jogo como forma de desestabilizar o adversário ou de exigir-lhe uma postura. E então o político deve, numa situação tão inconveniente como essa, seguir com coerência seus não-princípios religiosos (já que eram um tanto indiferentes às práticas religiosas pessoais) e ostentar a convicção de que defendem algo contrário ao que parcela significativa dos eleitores acredita, porque eles (os candidatos) não misturam religião com a questão do aborto? Acho que seria exigir demais e, ao mesmo tempo, ser um tanto moralista e ingênuo em relação à política. O que eles estão fazendo é serem maquiavélicos, em referência à Maquiavel, isto é, fazendo política real, agindo da melhor forma que acreditam para atingir um objetivo específico (conseguir mais votos e a simpatia dos eleitores religiosos) numa situação específica (na qual se exigiu um posicionamento sobre o tema do aborto). Foi uma estratégia política, um tanto frouxa, já que problemática em certos aspectos, mas eficaz em alguma medida e adequada em alguma medida à situação. Poderiam ter feito diferente? Certamente, sim. Como? Não sei. Alguém sabe uma estratégia melhor para a ocasião?

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