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domingo, 12 de dezembro de 2010

A prisão de Assange e a reação global

Via AcertodeContas

O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, foi preso, ontem, após alguns dias de perseguição internacional – desde que a Interpol comprou esquisitamente as acusações ridículas de uma província chamada Suécia. O crime foi taxado como “estupro” pela mídia, mas na verdade Assange foi preso porque transou com uma mulher que o acusou de fazê-lo sem usar camisinha, e por ter transado com duas mulheres numa mesma semana (na Suécia, por mais bizarro e medieval que pareça, essa é uma prática ilegal). Uma das mulheres que o acusam, inclusive, é suspeita de ter vínculos com a CIA. Mas, na verdade verdadeira (sic), Assange foi preso porque desafiou a ordem diplomática global com a publicação de documentos sigilosos, e, por isso, tem enfrentado uma perseguição sistemática – com direito ao rótulo de “terrorista”. Ou seja, Assange é um preso político – o primeiro preso político global da internet -, e isso deve ficar claro.

Cidadãos de todo o planeta tem apoiado a causa do WikiLeaks, e isso está bastante visível na internet, em geral, e no Twitter, mais especificamente. Mas engana-se quem acha que o Twitter está livre da pressão internacional. Ontem, duas das hashtags mais comentadas no microblog eram #wikileaks e #wikileaksbr (também sendo utilizadas as tags #cablegates, #freeassange, #cyberwar e algumas outras). De uma hora pra outra, elas sumiram, e todas as tags relativas ao WikiLeaks foram bloqueadas nos Trends Topics. No lugar de #wikileaks e #wikileaksbr surgiram, ontem, tags como #tititi, #pittynocirco, além de outras tolices que estão encobrindo a pressão em favor de Assange e do WikiLeaks.

Vários hackers ativistas estão atuando em todo o mundo, numa cyber guerra declarada (para entender melhor do que se trata, recomendo a leitura do texto “Operação Vingar Assange! Hackers em defesa do WikiLeaks“, postado hoje pelo blogueiro Raphael Tsavkko, que tem feito uma excelente cobertura via Twitter e blog). Já foram derrubados, por exemplo, sites da MasterCard, da PostFinance, do PayPal, da empresa de advogados que acusa Assange e também da promotoria sueca. A MasterCard virou alvo de ataques porque bloqueou os pagamentos de doações feitas ao WikiLeaks, ainda que mantenha ativos os pagamentos à Ku Klux Klan!

Não perceberemos assistindo na tevê ou lendo nos jornais, mas a coisa está feia por aí. Quem quiser acompanhar o que anda acontecendo, recomendo fazê-lo através do site Opera Mundi – que tem publicado bons textos sobre o caso. Recomendo também o blog montado em parceria entre a jornalista Natalia Viana (do Opera Mundi) e a CartaCapital (aqui). E ainda, o site Diario Liberdade, que, inclusive, postou, ontem, um texto assinado pelo próprio Julian Assange. No texto, intitulado A verdade ganhará sempre, o fundador do WikiLeaks diz:

Houve quem dissesse que sou anti-guerra: para que conste, não sou. Às vezes as nações têm de ir à guerra, e há guerras justas. Mas não há nada mais errado do que um governo mentir ao seu povo sobre essas guerras e depois pedir a esses mesmos cidadãos e cidadãs que arrisquem as suas vidas e os seus impostos com essas mentiras. Se uma guerra for justificada, então digam a verdade e as pessoas decidirão se a apoiam.”

O Opera Mundi publicou, também ontem, um recomendável artigo de Raphael Tsavkko. Reproduzo mais abaixo.

“Wikileaks, Direitos Fundamentais e Terrorismo”

por Raphael Tsavkko Garcia*
Colhido no Opera Mundi

Ao ler o excelente artigo do @Prenass sobre a defesa dos direitos fundamentais frente à perseguição que vem sofrendo o site (e o líder) do WikiLeaks, notei a incrível semelhança que o tema tem com o tratamento dado por diversos Estados à questão do Terrorismo.

Primeiro o curto e direto artigo do @Prenass:

“Em meio a toda a polêmica sobre o recente vazamento de documentos oficiais da diplomacia dos EUA, chamou-me a atenção a manifestação do Ministro da Indústria Francês, Eric Besson:

“Essa situação não é aceitável. A França não pode hospedar um site na internet que viola o sigilo das relações diplomáticas e coloca as pessoas em risco.”

Sempre me incomodou que a comunidade internacional ainda não se tenha mobilizado para garantir os direitos fundamentais ligados ao uso da Internet que têm sido sistematicamente violados por países como China, Irã e Coréia do Norte. Em diversas situações, as pessoas não tem acesso à cultura, não podem se expressar livremente e de início não são tratadas como inocentes. E nenhum país toma a iniciativa de condenar isso publicamente, nenhum Estado se coloca no cenário mundial contra essas atrocidades.

Mas basta um interesse governamental ser posto em cheque, outro Estado vem ao auxílio. Essa “cavalaria” francesa segue a linha dos absurdos com que a legislação daquele país tem abordado os desafios que a cultura digital traz. A proposta de transparência pública do Wikileaks não combina com o obscurantismo e o discurso do medo que embasam iniciativas como a Hadopi. Mais do que a fala de Besson, a postura de diversos países, condenando a iniciativa de exposição de documentos, não é exatamente uma surpresa nesse momento.

Mas até quando teremos que ouvir esse ensurdecedor silêncio dos bons?”

O ministro francês, claramente, se preocupa não com a segurança de pessoas possivelmente envolvidas ou que possam ser atingidas pelos vazamentos, na verdade se importa apenas com a mensagem e o alcance potencialmente destrutivo dos vazamentos, que mostram a verdade por detrás da diplomacia praticada pelas potências.

Mentiras, hipocrisia, ameaças, abusos, são apenas alguns termos que podem iniciar a discussão.

Se o WikiLeaks fosse especializado em vazar comunicações dos países do Eixo do Mal , alguém duvida que os EUA e seu aliado fariam do líder de tal organização um homem da maior importância e dariam total proteção à ele? Não há dúvida alguma.

O problema do WikiLeaks é que ele desnuda o Império, ele coloca em panos limpos todas as falcatruas yankees e de seus aliados.

É o mesmo que acontece com o uso político das classificações de Estado ou grupo terrorista. Por “uso político”, o que pode parecer uma obviedade, eu quero dizer o uso por conveniência, com fins e objetivos políticos bem definidos que vão – muito – além da classificação com bases sociológicas. É puro interesse.

O vazamento, assim como a definição de terrorista só se aplica porque é do interesse de alguns Estados em taxar seus inimigos desta forma. Pouco importam definições clássicas ou mesmo interpretações ao pé da letra, ou mesmo subjetivas. A questão é puramente manipular opinião pública, em conivência com a mídia, sempre pronta a agradar aos donos do poder e impor sua visão da realidade.

Mas o WikiLeaks traz ainda outra questão, a da liberdade na rede, a da liberdade de se disseminar conteúdo livremente. A perseguição que vem enfrentando o grupo, perseguido tanto com o pedido de extradição fabricado contra seu líder, Assange, quanto pela negativa de diversos servidores em manter seu conteúdo online.

Concordo com Alec Duarte, editor da Folha Poder:

“A ciberperseguição a Julian Assange e seu WikiLeaks chega a ser tão perturbadora quanto reveladora ao escancarar que os governos realmente não compreenderam a internet e a completa inutilidade de tentar controlá-la.”

É quase o mesmo efeito dos próprios papéis diplomáticos que o site se propôs a vazar, que apenas confirmam o que já se imaginava sobre o funcionamento da diplomacia internacional.
A disputa de gato e rato entre Assange e aqueles que querem o seu pescoço só traz à tona o que já desconfiávamos havia bastante tempo.

Quando o sociólogo espanhol Manuel Castells, provavelmente o maior pensador contemporâneo da vida em rede, afirmou que os governos têm medo da internet porque não possuem controle sobre ela, acrescentou que a tentativa de fiscalização sempre estará entre as prioridades do poder político.Trata-se do mais puro medo de Estados criminosos em ver seus segredos revelados.

De quebra, estes Estados ainda buscam punir os que os denunciam, e vigiam os que tentam defendê-lo. Isto mostra apenas que não só estes Estados Criminosos não aprendem com seus erros e crimes – na verdade apenas querem abafá-los para continuar a cometer mais alguns – como também parecem não compreender que, de vigilantes, passaram também a ser vigiados. suas ações repercutem em escala global, são acompanhadas por um mundo conectado e o repúdio vem de modo rápido e pesado.

Os Estados claramente terroristas, buscando privar o público de conhecer a verdade sobre seus atos e decisões podres, busca, ao invés de simplesmente esclarecer e admitir culpa, censurar, perseguir e condenar àqueles que conhecem a verdade.

O crime aqui está em ter acesso aos segredos mais profundos do Estado, assim como acontece com o Terrorismo, em que grupos se rebelam contra o padrão imposto por estes mesmos Estados e mostram que nem tudo é tão belo e colorido.

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* Raphael Tsavkko Garcia é mestrando em Comunicação e blogueiro. Escreve o Blog do Tsavkko e é autor e tradutor do website Global Voices Online.

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Leia também, aqui no blog:

Interpol pede prisão do fundador do WikiLeaks, que escancarou diplomacia dos EUA. No Brasil, ministro Jobim colaborou com espionagens

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