
Em Tropa de Elite 2, vemos a personagem principal, o capitão Nascimento, bem mais consciente de si mesma e do seu trabalho do que no primeiro filme. Suas suspeitas, iniciadas no primeiro filme, de que seu trabalho no BOPE não era de heroi, não era de garantir a paz e a segurança das pessoas de bem tornam-se intensas, e logo ele se vê no papel de quem deve desmantelar o "sistema" de corrupção dentro da polícia do Rio de Janeiro. Suas esperanças estão no seu novo cargo, secretário de segurança pública. Mas, no decorrer do filme, aquelas suspeitas se generalizam, e ele percebe que as relações entre milícias, corrupção mídia, governo e tráfico são mais consistentes e largas do que ele poderia ter previsto quando entrou no BOPE com esperanças de fazer algo de bom pela "sociedade". Mas parece que essa "sociedade" é composta apenas de alguns espertos e poderosos, que mantêm seus privilégios políticos e econômicos às custas dos demais. Capitão Nascimento, então, revela um criticismo e uma visão de totalidade incomuns nos profissionais em relação ao seu próprio trabalho: questiona se suas boas intenções iniciais são as mesmas de quem o emprega ou fazem parte da finalidade do seu trabalho; questiona se fazer seu trabalho bem feito significa ajudar a sociedade ou ajudar um grupo bastante restrito escondido nos bastidores; pergunta-se qual seu papel ou função dentro da sociedade: matar bandidos para garantir a segurança das pessoas de bem ou satisfazer expectativas sociais retoricamente, com apoio da mídia, para garantir que certas relações de poder se mantenham ocultas ou intactas?
É o que chamo de "criticismo do capitão Nascimento": suspeitas e visão crítica em relação ao seu próprio ofício, agregadas a uma perspectiva ampla que situa seu trabalho como alguma engrenagem dentro da sociedade, portanto com alguma função (aliás, não óbvia). Capitão Nascimento representa a perda da inocência do profissional em relação ao seu próprio papel dentro da sociedade, e a perda da fé nas supostas preocupações públicas das grandes autoridades. Darwin nos acordou para o fato de que não somos tão diferentes dos animais quanto gostaríamos de ser em meio a nossos devaneios de superioridade antropocêntricos; Freud nos fez pensar em nós mesmos como mais dependentes do sexo do que nosso moralismo hipócrita gostaria de admitir; Marx nos fez suspeitar que nossas crenças e ações não são tão livres quanto gostaríamos que fossem, nos fez suspeitar que elas tem seu lugar dentro da economia e da política de uma sociedade. Capitão Nascimento, filho de seu tempo no qual Darwin, Freud e Marx já se tornaram senso comum, nos trás novas suspeitas, mais inquietações e certo pessimismo em relação a uma sociedade que parece comandada por uma oligarquia (ou, para ser menos abstrato, parece comandada por pequenos grupos de pessoas espertas e poderosas o bastante, para fazer seu egoísmo vir a frente de qualquer necessidade pública). Além de desconfiado, o criticismo do capitão Nascimento é global: não vê apenas o que deve fazer quando a demanda do seu trabalho está a sua frente, não se restringe ao discurso oficial em torno do seu ofício, mas vai além e situa a si mesmo dentro do enorme jogo de poder do qual faz parte, mesmo sem saber, mesmo sem querer. Não é que vislumbre magicamente O Todo; suas crescentes informações residuais é que se conectam umas com as outras de modo a sugerir, indutivamente, uma cadeia mais ampla. Por isso, suas suspeitas, desconfianças e inquietações são crescentes, até chegar a um ponto em que ele próprio se vê minúsculo demais, impotente demais, fraco demais, para ser capaz de mudar alguma coisa significativa nesse "sistema" (como ele gosta de dizer).
Todavia, apesar de abalado, o capitão Nascimento percebe que não é o único a sentir o mau cheiro que se esconde a sua volta; percebe que tem alguns amigos que estão com ele. Então, ao invés de recolher-se a sua insignificância e preocupar-se tão-somente consigo mesmo, ele abandona o receio, e decide continuar na luta por um ar mais respirável, menos pútrido, agora mais consciente do seu papel. Observa com atenção, revela suas suspeitas, mostra as informações que possui, denuncia o mal. Sim, o capitão Nascimento não perdeu as esperanças num mundo menos desagradável onde as pessoas sejam menos exploradas e sofram menos, onde mesmo os poderosos não escapem impunes do rolo compressor do seu próprio egoísmo.
Ítalo Oliveira.
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