Júlia Dias Carneiro
Da BBC Brasil no Rio de Janeiro

Pesquisadora diz que atirador queria provocar comoção na sociedade
O responsável pelo ataque que matou ao menos onze pessoas em uma escola municipal no Rio de Janeiro nesta quinta-feira buscava, com o ato, “gerar grande comoção”, na opinião da cientista social Silvia Ramos, pesquisadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes.
Para a pesquisadora, o episódio teve uma "produção midiática, de alguém que planejou uma morte espetacular, com ampla cobertura da mídia".
“Ele produziu uma chacina para gerar uma grande comoção", afirmou.
Nesta quinta-feira, o atirador Wellington Menezes de Oliveira disparou contra alunos da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, de onde fora aluno, e depois cometeu suicídio. Pelo menos 11 pessoas foram mortas.
‘Imitação’
Na opinião de Silvia Ramos, o incidente no Rio de Janeiro tem um “caráter imitativo muito evidente” em relação a episódios ocorridos nos Estados Unidos.
“Vários ingredientes foram copiados quase que perfeitamente, como o cara escolher uma escola, entrar atirando aleatoriamente numa sala de aula, deixar uma carta suicida”, disse.
Tais ingredientes, para a pesquisadora, remetem diretamente a atos similares que tiveram grande repercussão nos Estados Unidos, como os assassinatos de 12 alunos e um professor na escola de Columbine, no Colorado, cometidos por dois alunos da instituição em 1999.
De acordo com a socióloga, o fato de Wellington Menezes ter realizado o crime em uma escola, onde a “inocência total” está simbolizada e as crianças estão indefesas, aumenta o choque da população, assim como o fato de o alvo primordial ter sido meninas, que representam pelo menos dez dos mortos.
“Isso aumenta o caráter de covardia, o sentimento de impotência. É muito chocante e produz um sentimento de indignação muito forte”, diz Ramos.
De acordo com a cientista social, a perplexidade é mais forte porque o Brasil não tem histórico de episódios desse tipo com esta dimensão.
“É muito surpreendente pelo formato, não faz parte da nossa cultura”, disse.
Ela diz que, apesar de o Brasil ter a sexta maior taxa de homicídios do mundo, os crimes costumam ser associados a dinâmicas interpessoais ou do crime organizado.
"Neste caso, o crime parece dialogar com o mundo midiático."
“O Brasil parou, o governador parou, o nome dele vai ser falado, a foto vai sair em todos os jornais. O episódio é um ato de grande repercussão, e nesse sentido tem um caráter terrorista. Amanhã todos os pais que têm filhos em escolas vão estar aterrorizados", disse a pesquisadora.
ABATE: Para a grande mídia, é hora de faturar! Quase um furo, a notícia é grande, incomum, um misto de horror e cinema. Os jornalistas (vejam na Record e na Band, por exemplo) não perderam tempo em "entrevistar" mães, alunos e alunas ainda chorando pela dor ou em estado de choque: "Pode nos contar como aconteceu? Como a senhora se sente?" Datena provavelmente acha que a chacina é falta de deus no coração daquele jovem... A grande mídia, atendendo à curiosidade de boa parcela das pessoas, certamente fará questão de apresentar, tantas e tantas vezes, o rosto do assassino, as cenas de terror e correria, enquanto glorificará o heroísmo do policial que baleou o assassino (de fato, foi uma benção que ele o tenha feito, mas aqui me refiro à exploração midiática): enfim, será mais espetáculo para os brasileiros, uma superprodução... Acontecimentos como esse deveriam nos levar a pensarmos sobre violência nas escolas, educação e outras questões importantes para nosso país, ao invés de nos levar a ficarmos babando fascinados pelo espetáculo...
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