
Há pouco li notícias nada agradáveis: a prefeitura do Recife, Pernambuco, fez uma compra de livros fantasmas sem licitação no valor de cerca de R$ 4,2 milhões; Cornel West, filósofo e líder cristão americano de esquerda, referiu-se a Barack Obama, esperanças de uma era pós-Bush, como “marionete negra dos oligarcas de Wall Street e dos plutocratas capitalistas, agora também cabeça da máquina americana de matar, e orgulhoso disso”; enquanto isso, na Espanha, manifestantes acampados na Praça Catalunya, Barcelona, em protesto às medidas da União Europeia para lidar com a crise financeira foram agredidos com cassetetes e balas de borrachas por policiais que cumpriam a ordem de limpar a praça em razão do jogo de futebol do dia seguinte; cenas de violência contra civis difíceis de acreditar passarem-se numa democracia de primeiro mundo; no mesmo blog no qual li a notícia sobre a compra corrupta da prefeitura do Recife, o blogueiro exprimia que “Assistir a plenária de votação do código florestal, na última terça-feira, no Congresso Nacional, foi uma das experiências políticas mais deprimentes que tive nos últimos tempos. É visível que nossos ‘representantes’ não nos representam de fato” e que “os parlamentares que elegemos estão ali no Congresso para representar seus próprios interesses (...) e os interesses de seus financiadores de campanha”.
Corrupção, violência e defesa de interesses particulares e oligárquicos, em detrimento do interesse público, não são novidades. Existem desde que os seres humanos se organizaram politicamente, em modelos diversos – seja na democracia grega, ou nas teocracias egípcias. Parece haver algo de fortemente inevitável nessas coisas. E isso é desolador. Estariam as coisas melhorando? Posso dizer que o Brasil de hoje parece melhor do que o de décadas passadas, em que os miseráveis eram mais numerosos e não se podia expressar-se minimamente contra o governo sem ter medo de perseguições. Mas nem de longe o Brasil de hoje é o bastante. E o que dizer da Espanha, membro da União Europeia? Afinal, os manifestantes estão lá justamente porque a situação do país não lhes agrada, tampouco as medidas que vem sendo tomadas pelo governo. Enquanto as notícias sobre o Brasil me sugeriram que havia algo de muito errado com o próprio sistema representativo (no qual escolhemos quem deve fazer as escolhas politicamente relevantes para o país, estados e municípios, em nome da população em geral), as notícias sobre a Espanha me fizeram pensar se nós, que queremos um mundo melhor (por imperfeito que seja), podemos fazer alguma coisa realmente relevante contra ações desagradáveis daqueles que detem o poder político, econômico e militar (?). Não é muito difícil imaginar como parlamentares difíceis de serem postos para fora do cargo, uma vez eleitos, atentam para os próprios interesses e o de seus financiadores, assim como para os interesses dos mais poderosos do jogo de poder de então. Considere que Brasília, capital nacional, fica relativamente isolada dos centros do país, como Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Recife, Santa Catarina e outros estados mais populosos: parece ser preciso mais do que força de vontade para representar os eleitores. Também não é difícil pensar que os marxistas tinham razão quando sugeriram que nossos direitos de expressão e manifestação vão até onde começam os interesses de estabilidade política e econômica de quem detem o poder no momento: a polícia sempre acompanha as passeatas. Se nossas esperanças alguma vez repousaram em alguma luz vinda dos grandes poderes, como nos EUA, as ações neoliberais e beligerantes do prêmio Nobel da Paz (sic) nos fazem parecer tolos e ingênuos.
A solução estaria na Revolução Total? Limpar toda a merda com sangue na esperança de que cheire melhor depois disso? Particularmente, as experiências com Stálin, Mao e outros estandartes vermelhos do progresso me parecem sugerir que acreditar na ressurreição da dignidade pela derrubada do status quo é uma ingenuidade que lembra o mito de Rousseau do Bom Selvagem. Os novos humanos no poder não são necessariamente melhores que os antigos; podem ser piores. O que levantamos das cinzas da destruição que causamos não são necessariamente flores; podem ser heras compressoras da liberdade e da democracia. Em muitos (realmente muitos!) contextos, parece ser tentador demais para os humanos aproveitar-se de sua posição econômica, política ou militar privilegiada, para manter ou obter vantagens às custas da fraqueza e miséria alheias.
Não tenho soluções em mente. Resta-me difícil manter esperanças num mundo melhor; quem sabe algo menos ruim seja possível. No entanto, parece-me óbvio que perder todas as esperanças na luta por menos sofrimento humano apenas contribui para aumentar o sofrimento humano, enquanto nos acomoda como preguiçosos numa poltrona em frente à televisão, que mostra o sorriso dos hipócritas. Ao mesmo tempo, é paradoxal e desolador pensar o quanto somos pequenos e impotentes frente ao sofrimento geral e ao poder dos poderosos. Talvez, como uma amiga sugeriu, apenas possamos adiar nossa própria destruição e consolar alguns poucos nesse processo...
Ítalo J. S. Oliveira – 27/05/2011
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