
Têm aparecido notícias cada vez mais escandalosas relatando casos de violência cometidos contra pessoas do grupo LGBT (ou LGBTTTs: Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros, e simpatizantes) e até mesmo agressões contra heterossexuais pelo fato de terem sido confundidos com homossexuais. Paralelamente, ocorre algum debate em torno do Projeto de Lei 122 de 2006 (PL122/06), que criminaliza a homofobia, ou melhor, criminaliza a discriminação sexual e de gênero como um caso particular de discriminação (assim como o é o racismo), já repudiada pelo art. 5ª da Constituição Federal. Por sua vez, religiosos, especialmente pastores evangélicos, como o pastor Silas Malafaia (que possui horário na televisão) e Marco Feliciano (que também é cantor e deputado federal), além de deputados conservadores, como o famoso Jair Bolsonaro e seus filhos Carlos (vereador carioca) e Flávio (deputado estadual fluminense), têm advogado radicalmente contra a causa LGBT, tanto no lobby contrário ao PL122 como difundindo entre as pessoas o preconceito contra os LGBTs. Esses são vistos pelos conservadores como uma “anormalidade” social, uma “anomalia”, algo de estranho e nojento, diante dos quais deveríamos ter repúdio; um atentado à moral, aos bons costumes, à família e à Igreja. Para alguns, “é melhor não ter filhos do que ter um filho frango”; “gay”, entre muitas pessoas, é usado como adjetivo pejorativo, um xingamento, tal como “corno”, o que revela o grau de difusão e inculcação do preconceito. Quero sugerir aqui que a importância da causa LGBT não se restringe aos LGBTs, pois está ligada a outras causas particulares, como a das feministas e dos negros, e todas elas podem ser vistas como partes de causas mais amplas, como a busca por uma sociedade mais justa, com maior liberdade, tolerância, igualdade e fraternidade entre as pessoas – e aqui destacarei a ligação entre LGBTs e feminismo. Por isso, parece-me de grande relevância para ação política que cada grupo defensor de sua causa saiba ver o que há de comum com outras causas, para que todos possam agir conjuntamente e obter mais sucesso político. Pela mesma razão, isso também sugere que é de interesse de todos e todas na sociedade (presumindo que todos e todas querem uma sociedade mais justa, liberal, tolerante, igualitária e fraterna) a defesa dessas causas (e obviamente também a dos LGBTs).
O preconceito contra os LGBTs, acredito, é uma versão do machismo, segundo o qual ao sexo masculino cabe os papeis sociais mais importantes, maior prestígio, autoridade familiar, poder político e econômico. O machismo aparece em praticamente todas as sociedades humanas; trata-se da violenta dominação masculina sobre as mulheres, as quais historicamente (e ainda hoje) sofreram “lavagem cerebral” para aprenderem a se conformar aos seus papeis sociais (submissão ao marido, afazeres domésticos, culto à beleza, empregos desprestigiados, etc.). O machismo pode ser visto em frases do senso comum como “mulher não sabe dirigir” ou em brincadeiras, como as brincadeiras com bonecas, que sugerem que a mulher deve se adaptar a lavar, cuidar da família, passar roupas, oferecer chá, ser dócil, meiga, calma, conciliadora – “qualidades” supostamente femininas inatas. O machismo exalta um homem forte, sagaz, de certa forma violento, determinado – “qualidades” supostamente masculinas inatas. Os LGBTs, assim, contrariariam a “natureza” do homem e da mulher, ao se comportarem, sendo homens, como se fossem mulheres, e, sendo mulheres, como se fossem homens – mas, por razões de desejos sexuais, as lésbicas são muito melhores vistas pelos homens do que os gays. Isso quer dizer mais exatamente que o preconceito contra os LGBTs está estruturado sobre papeis sociais historicamente criados pelo machismo para cada um dos sexos, a fim de garantir a dominação masculina. Aqui, também, podemos ver a religião como coadjuvante, ajudando a reproduzir essa dominação masculina, essa violência contra a mulher, como mostram as seguintes passagens da Bíblia:
* “nunca aprender nada de alguma mulher, que deve estar sempre em submissão e silêncio” (Timóteo 2:11-15)
* “não se aproximar ou tocar mulheres menstruadas sob pena de permanecer ‘imundo’” (Levítico 15:19)
Dessa maneira, o preconceito contra o chamado homem “afeminado” é o mesmo preconceito contra a mulher, pois deixa implícita a afirmação da inferioridade feminina em relação ao homem – também por essa razão, penso, é que as lésbicas masculinizadas (que são apenas uma parte das lésbicas) não são tão hostilizadas quanto os gays, inclusive porque já há mulheres heterossexuais masculinizadas por força da profissão (foi o meio encontrado para alcançarem cargos de liderança tradicionalmente masculinos). É por isso que as feministas e as mulheres em geral deveriam ter interesse em defender a causa LGBT, uma vez que diz respeito às suas próprias causas contra a opressão masculina.
Além dessa ligação entre a causa LGBT e a causa feminista, ambas podem ser vistas como partes de causas mais gerais e amplas, dentre as quais podemos destacar: (1) nosso sonho de que um dia as pessoas de nossa comunidade sejam livres, possam se expressar sem censuras, desde que respeitem o direito dos outros; (2) nosso sonho de que um dia possamos ver-nos uns aos outros como parte de uma mesma comunidade, como seres humanos que podem e devem se ajudar mutuamente tanto quanto poderem; (3) nosso sonho de que um dia as pessoas possam ser tratadas igualmente no que forem iguais, sendo devido a cada um o que é seu, conforme suas necessidades, sem nenhuma discriminação; (4) nosso sonho de que possamos um dia convivermos em paz, sem maiores conflitos, a não ser ocasionais, que serão resolvidos através do diálogo e da deliberação; (5) nosso sonho de que um dia possamos viver numa sociedade na qual as pessoas se amem mais e se odeiem menos. A causa LGBT está diretamente ligada com tudo isso, como um caso particular de cada um desses itens, assim como a causa feminista (e outras). Daí a importância fundamental para todos da defesa da causa LGBT – tanto quanto a dos negros, a das mulheres, etc.
ABAIXO ALGUNS SITES E INFORMAÇÕES AFINS:* Sobre o Projeto de Lei 122/2006
* Brasil: Panorama LGBT em Debate
* A cada 36 horas, um homossexual é morto no Brasil
* Pai e filho são confundidos com casal gay e agredidos por grupo
* 5 mitos sobre a homossexualidade
* Perseguição religiosa aos LGBTs no Brasil é destaque internacional!
